Ensaio sobre a cegueira

#FicaADica Literatura: “O Ensaio sobre a cegueira” é uma obra mais atual do que nunca

O livro de José Saramago é um dos mais impactantes do século XX e merece uma leitura neste momento de pandemia em que sua narrativa encontra vários ecos na observação da condição humana

Uma doença misteriosa surge de repente, se espalha rapidamente, atingindo pessoas no mundo inteiro, sem distinção e nem previsão de cura. Poderíamos estar fazendo um resumo do quadro atual do planeta, frente à pandemia da Covid-19, mas este é o mote inicial do livro “Ensaio sobre a Cegueira”, romance do escritor português José Saramago, publicado em 1995, e traduzido para diversas línguas. Ele é a indicação que o Sindilegis traz no #FicaADica, #FicaEmCasa de hoje.

A obra de Saramago narra a história da epidemia de cegueira branca que se espalha por uma cidade, causando um grande colapso na vida das pessoas e abalando as estruturas sociais. O autor constrói uma narrativa para discutir o mundo vivido no final do século XX a partir desta doença, que começa com o Primeiro Cego (os personagens são identificados assim, pelo seu lugar na história) que está com o carro parado no semáforo e de repente não consegue mais enxergar porque uma nuvem branca lhe cobre a visão.

A partir da consulta que este homem faz com um oftalmologista, a doença se espalha e torna-se uma epidemia, atingindo a toda a população, com exceção da esposa do médico que atendeu o paciente zero, que se torna a única observadora do caos que vem a seguir. O governo decide agir, e as pessoas infectadas são colocadas em uma quarentena com recursos limitados que irá desvendar aos poucos as características primitivas do ser humano.

“O Ensaio sobre a Cegueira” é um livro para se ler neste momento de confinamento causado pelo Coronavírus. Mas não para pensar sobre como uma doença que se espalha sem controle pode mudar nossa vida, mas como nossa vida talvez estivesse completamente equivocada antes que essa doença chegasse. O mundo que está parando em função do Coronavírus não é aquele que garante às pessoas felicidade, condições básicas de saúde, educação, um bom lugar para morar. O mundo que está parando é aquele que enxergamos como único e que se movimenta pura e simplesmente na lógica do lucro.

Saramago mostra, através de sua obra intensiva e sofrida, as reações do ser humano às necessidades, à incapacidade, à impotência, ao desprezo e ao abandono. Leva-nos também a refletir sobre a moral, os costumes, a ética e o preconceito através dos olhos da personagem principal, a mulher do médico, que se depara ao longo da narrativa com situações inadmissíveis, que afastam os personagens do sentido de humanidade.

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