F0C450F9-8D1F-41F7-BD9E-CB3FDD287976

 “Protagonismo do Brasil na produção de vacinas para Covid-19 se deve à alta capacitação técnica”, avaliam pesquisadores

Em 8ª edição do Café com Política, especialistas ligados aos dois projetos de imunizantes que estão sendo testados no país falam sobre as perspectivas e expectativas dos testes

 

Os desafios para a produção da vacina para a Covid-19 no Brasil, como a ciência está trabalhando para garantir um produto seguro e o protagonismo do país na testagem dos imunizantes foram o mote da 8ª edição do Café com Política, realizada nessa segunda-feira (13/07). O fórum idealizado pelo Sindilegis reuniu, de maneira inédita, especialistas ligados aos dois projetos, para trazer dados sobre as vacinas que estão sendo testadas no país: uma criada na Universidade de Oxford, na Inglaterra, cuja pesquisa é realizada em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a produção será conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); e uma segunda, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, que conta com o trabalho da Universidade de Brasília (UnB) para realizar ensaios clínicos no DF. Ambas as vacinas estão na fase 3, que é a última etapa dos estudos. Assista ao debate aqui.

 

Os painelistas foram Marco Krieger, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz e Gustavo Adolfo Romero, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB). O jornalista e apresentador da TV Câmara Lincoln Macario mediou o debate. A jornalista e repórter de política da Revista Crusoé Helena Mader foi a entrevistadora. O vice-presidente do Sindilegis, Alison Souza também participou do fórum e endereçou perguntas aos painelistas.

 

Processo de produção das vacinas

 

Vacina de Oxford, com pesquisa realizada em parceria com a Unifesp e produção pela Fiocruz – Marco Krieger afirmou que a Fiocruz começou a monitorar o movimento científico para o enfrentamento da pandemia há cerca de três meses. Segundo ele, existem 250 iniciativas para o tratamento da doença, mas a grande maioria está centrada no desenvolvimento de vacinas: cerca de 190. Krieger explicou que as fases de ensaios clínicos duram em média uma década, mas podemos estar diante um feito inédito: o desenvolvimento e o registro de uma vacina em menos de um ano. “A nossa vacina entrou em fase 1-2 em abril e em junho entrou na fase 3. Existe a possibilidade que a gente conclua esse estudo clínico ainda este ano. Existe um esforço global que visa ter 2 milhões de doses produzidas mesmo antes da obtenção do registro sanitário. É uma ação de risco, embora os dados sejam muito promissores, mas risco maior seria não iniciar essa produção. A partir do momento que nós tivermos a vacina, nós temos que usar essa importante ferramenta para, em adição à testagem massiva e ao uso de máscaras, podermos partir para esse enfrentamento. E, no Brasil, vamos produzir 30 milhões de doses em dezembro e depois completar 100 milhões de doses, caso a gente obtenha o registro sanitário. Essa vacina foi considerada pela Organização Mundial de Saúde como a mais promissora. Ela está sendo produzida a preço de custo. A nossa preocupação com o acesso anda ao lado da garantia tecnológica do melhor produto. Temos bastante satisfação de estar envolvidos nesse projeto e garantir para a sociedade brasileira a capacidade de produzir de uma maneira muito rápida um quantitativo significativo de doses dessa vacina caso ela prove e confirme os dados promissores que nós temos até agora”.

 

Vacina desenvolvida pela farmacêutica Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, que conta apoio da UnB nos testes clínicos – Para o Dr. Gustavo Romero, os paradigmas de desenvolvimento de vacinas têm mudado radicalmente durante a pandemia, diante da necessidade de uma solução rápida para mitigar os efeitos da tragédia. Ele afirmou que os testes do quais a UnB participará começarão nós próximos dias. Conforme explicou, a fase 3 vai definir se o produto é capaz de proteger as pessoas infectadas pelo coronavírus e se confirma todo o perfil de segurança mostrado durante as fases de desenvolvimento 1 e 2.

“Os resultados da fase 2 da vacina demonstraram que ela é capaz de induzir uma resposta imunológica adequada em mais de 90% dos indivíduos expostos ao produto. Isso é bastante promissor. O Butantan pretende incluir 9 mil voluntários: metade vai receber a vacina e a outra metade o placebo. Essas pessoas serão acompanhadas durante um ano. Nesse período a gente vai acompanhar se elas se infectam tanto na forma assintomática quanto se desenvolvem a doença. Para provar a eficácia de uma vacina é muito importante que as pessoas estejam expostas ao risco. Por isso a estratégia de incluir profissionais de saúde. Isso permite que em um tempo mais acelerado a gente consiga ter evidência da proteção que o produto é capaz de produzir. Os resultados serão analisados e, assim que houver evidências suficientes sobre o benefício e o não malefício, haverá a etapa seguinte: após uma fase 3 de sucesso, a próxima fase é o registro do produto para a comercialização no país. É mais uma iniciativa. Torcemos para que qualquer vacina que esteja em desenvolvimento avance e que rapidamente toda a população mundial possa ser alcançada”.

 

Como melhorar as condições de desenvolvimento da vacina e permitir que os imunizantes sejam acessíveis à população?

 

Krieger disse que a Fiocruz defende um novo marco legal para viabilizar a vacina e enfrentar a pandemia. “Nós estamos apostando em um instrumento legal, baseado no novo Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, que é a encomenda tecnológica. Nós estamos assumindo esse risco, mas nós vamos ter que discutir profundamente com os colegas da Câmara dos Deputados, do TCU, do Ministério da Saúde e dos outros órgãos do Executivo para que isso seja feito com a maior segurança possível. É claro que a gente sabe que existe o risco tecnológico. Nós não podemos correr nenhum risco jurídico na construção desta ferramenta que é baseada em torno de todo o conjunto de informação cientifica que nós temos agora e na necessidade de se tratar esse enfrentamento da pandemia de uma maneira rápida”.

 

“O fato de hoje o Sindilegis estar discutindo isso, no âmbito dos órgãos de controle, como o TCU, para que isso seja levado em consideração e seja compreendido em profundidade é essencial”, avaliou Romero. Segundo ele, é preciso liberar imediatamente recursos para a área de ciência e tecnologia que está asfixiada. “Nós precisamos do apoio dos legisladores para produzir soluções que retirem todas as barreiras impostas para um efetivo investimento em ciência e tecnologia tanto nas instituições de pesquisa, como a Fiocruz, como no sistema federal das universidades e das instituições de ensino, cujo papel é crucial”.

 

Protagonismo do Brasil na produção da vacina

 

Marco Krieger avalia que o país possui algumas fortalezas no processo de produção de imunizantes: “o Sistema Único de Saúde, cujo programa de imunização é um dos mais completos do mundo; a nossa capacidade técnico-científica, nós temos instituições como o Instituto Butantan e a Fiocruz que podem produzir vacinas que seriam certificadas nas agências mais rigorosas do mundo, a Fiocruz é qualificada pela OMS há praticamente 20 anos e exporta vacinas para mais de 70 países; nós temos nas universidades excelentes pesquisadores; temos tradição científica na condução de ensaios clínicos; e, além disso, um dado importante que não deve ser menosprezado e não é motivo de orgulho, mas nós estamos em um momento da pandemia que o vírus está circulando fortemente, o que favorece ter dados estatisticamente confiáveis”.

 

Romero, por sua vez, acredita que o diferencial do Brasil é a capacidade técnica para saber fazer. “É a capacidade de organizar ensaios clínicos complexos, com equipes capacitadas em boas práticas de pesquisa clínica que vão conduzir aquilo de tal maneira para que os resultados sejam confiáveis. Esse conjunto faz a vantagem competitiva do Brasil neste momento”.

 

Imunidade adquirida pela vacina

 

Os painelistas foram unânimes em afirmar que não há como fazer uma previsão sobre a imunidade adquirida pela vacina. De acordo com os pesquisadores, também não é possível dizer qual seria a periodicidade ideal para a imunização. “É uma doença nova. Precisamos dos resultados dos ensaios clínicos para ter essas informações. É muito cedo para a gente falar sobre isso”, ressaltou Krieger. “Ainda não sabemos qual é a longevidade protetora da vacina. Como ela vai se comportar e quanto tempo vai durar são respostas que nós teremos apenas na fase 4, quando começar a vacinação”, completou Romero.

 

Previsão das primeiras doses das vacinas

 

Krieger declarou que a expectativa da Fiocruz é produzir 100 milhões de doses até fevereiro. “Nós temos condições de produzir esse número, correspondente à metade da população brasileira. Nós podemos produzir 40 milhões de doses por mês, então em um ano a gente pode produzir quase 500 milhões de doses. Eu não tenho dúvidas de que se essa vacina der certo, com essa capacidade de produção, a Fiocruz e o Brasil vão contribuir para a saúde global. Agora, uma coisa que a gente tem que reforçar, é que a vacina é para daqui a seis meses, talvez a vacina chegue e a pandemia esteja num momento muito mais avançado, com um número muito menor de casos. Nós temos muito o que aprender ainda com essa doença, então eu acho que o dever que fica para a nossa sociedade é: faça o melhor agora e nós vamos tentar fazer o melhor no futuro, mas não vamos esperar esse momento. O momento de enfrentar a pandemia é agora”.

 

Lições da pandemia

 

“O cenário dolorosamente desigual no qual vivemos revelou que se o avanço tecnológico que temos até hoje permite o desenvolvimento de vacinas, revelou também o quão atrasados e quão errados estamos no caminho que assumimos em relação à abordagem de uma tragédia como a desigualdade em que vivemos e das nossas opções pelos modelos econômicos que perpetuam e exacerbam esses processos de desigualdade. Então é também para refletir sobre isso como pano de fundo das nossas dores, das nossas tragédias e dos nossos lutos, mas confiando na ciência poderemos ver um pouco de luz no futuro”, ponderou Romero.

Deixe seu comentário