Em abril, celebra-se o Dia Nacional da Biblioteca — uma data que convida à reflexão sobre o papel dessas instituições na sociedade, especialmente no Poder Legislativo, onde se preserva parte importante da história do Brasil e do mundo.
Com esse olhar, o Sindilegis visitou as bibliotecas da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e do Tribunal de Contas da União para conhecer de perto espaços que, entre obras raras e acervos digitais, mantêm viva a memória do país e contribuem para a construção de um futuro mais consciente e democrático.
Câmara dos Deputados: tradição, tecnologia e acesso ampliado à informação
A biblioteca da Câmara dos Deputados mantém um dos acervos mais relevantes da democracia brasileira, reunindo cerca de 200 mil títulos, além de aproximadamente 2 mil periódicos nacionais e internacionais. O espaço combina preservação histórica, serviços digitais e atendimento personalizado para apoiar a atividade parlamentar, a pesquisa e a produção de conhecimento.
De acordo com a analista legislativa Fabyola Madeira, formada em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília, a estrutura vai além do acervo físico. Hoje, a biblioteca oferece uma central de acesso a conteúdos digitais, que facilita muito a rotina de pesquisa.
Entre os recursos disponíveis está a plataforma PressReader, que permite a leitura de jornais e revistas nacionais e internacionais. O acesso pode ser feito nos computadores da Câmara ou por dispositivos conectados à rede interna, com possibilidade de leitura posterior fora do ambiente institucional.
Outro destaque é a biblioteca digital, que reúne publicações produzidas pela Casa, além de obras raras já digitalizadas. Parte desse material também integra exposições virtuais, ampliando o acesso ao patrimônio histórico. Trabalhos acadêmicos desenvolvidos no âmbito do Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento (Cefor) também passam por catalogação e são incorporados ao acervo digital.
A biblioteca integra ainda a Rede Virtual de Bibliotecas, formada por instituições como o Senado Federal, tribunais e órgãos públicos. A parceria permite o empréstimo entre bibliotecas, ampliando o acesso a obras que não estão disponíveis localmente.
No atendimento, iniciativas como o “Biblio Conecta” modernizam o serviço. Por meio do aplicativo de mensagens WhatsApp, usuários podem solicitar empréstimos, renovações e devoluções de livros, com opção de entrega nos gabinetes e anexos da Câmara. “É um serviço que tem facilitado muito o dia a dia dos usuários”, explicou Fabyola.
A biblioteca também mantém um banco de notícias selecionadas, com curadoria diária de conteúdos relacionados ao Poder Legislativo, e recebe visitas guiadas de estudantes, pesquisadores e grupos institucionais interessados em conhecer o funcionamento e o acervo, incluindo obras raras.
Valorização do trabalho técnico
Segundo Fabyola, o papel do bibliotecário tem ganhado novo destaque com o avanço das tecnologias: “Houve um momento em que se acreditou que a Internet substituiria esse trabalho. Hoje, percebe-se o contrário: a organização e o tratamento da informação são essenciais, inclusive para o funcionamento da inteligência artificial”.
A servidora também explicou que sistemas automatizados dependem de dados bem estruturados e indexados para oferecer respostas precisas. “Sem esse tratamento especializado, muitas informações relevantes ficam inacessíveis”.
Trajetória marcada pela instituição
A relação de Fabyola com a biblioteca começou ainda como estagiária, no início dos anos 2000. Anos depois, retornou como servidora efetiva, acompanhando de perto a transformação digital do setor. “Vi de dentro a criação da biblioteca digital e o avanço da digitalização de documentos históricos”, relata.
Para a analista, a experiência vai além da atuação profissional. “É uma trajetória construída ao longo do tempo, com muitos aprendizados e realizações. Trabalhar com o que se gosta faz toda a diferença”, afirma.
Com serviços diversificados e em constante atualização, a biblioteca da Câmara dos Deputados se consolida como um espaço estratégico de apoio à atividade legislativa e à produção de conhecimento, integrando tradição e inovação no acesso à informação.
A Biblioteca da Câmara dos Deputados está aberta à visitação e recebe servidores, pesquisadores e o público interessado em conhecer seu acervo e serviços. O espaço funciona no Anexo II, térreo, em Brasília (DF), CEP 70160-900, com atendimento de segunda a quinta-feira, das 9h às 19h, e às sextas-feiras, das 9h às 18h. A biblioteca também oferece visitas guiadas, que apresentam desde o salão de leitura até as obras raras e os recursos digitais. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (61) 3216-5777 ou pelo site www.camara.leg.br/biblioteca-e-publicacoes/.
Senado Federal: 200 anos de legado e inovação no apoio à atividade legislativa
Criada em 1826, ainda nos primeiros anos do Senado Federal, a biblioteca do Senado acompanha a própria história do Poder Legislativo brasileiro. À época, a instituição era chamada de “Livraria do Senado” e surgiu a partir da necessidade de oferecer suporte informacional aos parlamentares, iniciativa defendida pelo Barão de Cairu.
Ao longo de quase dois séculos, a biblioteca passou por diferentes sedes e transformações, acompanhando mudanças estruturais e tecnológicas do país. Hoje, instalada no Congresso Nacional, em Brasília, a Biblioteca Acadêmico Luiz Viana Filho mantém viva essa trajetória ao combinar tradição e inovação.
“O papel da biblioteca sempre foi dar suporte às atividades legislativas. Ao longo desses 200 anos, as coisas foram mudando, mas essa essência permanece”, destaca o coordenador da biblioteca, Osmar Arouck.
O nome atual é uma homenagem ao senador baiano Luiz Viana Filho, imortal da Academia Brasileira de Letras e reconhecido bibliófilo. Após sua morte, seu acervo pessoal foi incorporado à biblioteca, reunindo obras raras e, em alguns casos, únicas, com destaque para biografias de brasileiros, uma de suas principais áreas de interesse.
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Com um acervo amplo e diversificado, a biblioteca reúne hoje mais de 700 mil itens, incluindo livros, periódicos, documentos legislativos e materiais digitais. Ao mesmo tempo em que abrange diversas áreas do conhecimento, o acervo mantém um perfil específico, voltado ao apoio das atividades parlamentares.
Entre os destaques estão as obras raras, que somam cerca de 8 mil volumes. O conjunto inclui peças de grande valor histórico, como um manuscrito de Machado de Assis e a obra “Novus Orbis”, de 1633, considerada a mais antiga da coleção. Grande parte desse material já foi digitalizada e está disponível ao público.
A digitalização, aliás, é uma das marcas da evolução da biblioteca. Pioneira na automação de acervos no Brasil, a instituição iniciou esse processo ainda na década de 1970, com a criação de sistemas que deram origem a redes de bibliotecas. Hoje, esse avanço se reflete na Biblioteca Digital do Senado Federal, que já reúne cerca de 500 mil itens. “Com a biblioteca digital, hoje vamos muito além do espaço físico”, afirma Arouck.
Além de preservar e disponibilizar conteúdos, a biblioteca desempenha um papel estratégico na curadoria da informação. O trabalho envolve a seleção de fontes confiáveis e a organização de conteúdos que subsidiam a tomada de decisão no Legislativo.
“A importância da biblioteca hoje está na curadoria da informação. Nosso usuário precisa confiar no que encontra aqui, e isso garante qualidade para o trabalho legislativo”, explica o coordenador.
Aberta ao público, a biblioteca funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h30, e atende tanto servidores e parlamentares quanto pesquisadores e cidadãos interessados. Somente em 2025, foram registrados mais de 9 mil empréstimos de itens físicos, evidenciando a relevância do espaço também no formato tradicional.
Além disso, iniciativas como a Coleção Escritoras do Brasil reforçam o compromisso da instituição com a valorização da produção intelectual nacional, especialmente de autoras historicamente pouco visibilizados.
Às vésperas de completar 200 anos, em maio, a Biblioteca do Senado reafirma seu papel como um espaço de memória, conhecimento e apoio à democracia, mostrando que, mesmo diante das transformações tecnológicas, o acesso qualificado à informação segue sendo essencial para o funcionamento das instituições públicas.
Tribunal de Contas da União: memória institucional e apoio no controle dos gastos públicos
Criada a partir da necessidade de organizar e ampliar o acesso à informação dentro do Tribunal de Contas da União (TCU), a Biblioteca Ministro Ruben Rosa é hoje um importante centro de referência em temas ligados ao controle dos gastos públicos no Brasil.
A ideia de criação da biblioteca surgiu em 1915, quando o então presidente do TCU, Dídimo Agapito da Veiga, destacou, ao concluir o relatório das contas do governo, que a organização de uma biblioteca era uma “necessidade inadiável”. Apesar disso, a formalização só ocorreu anos depois. Em 1941, no Rio de Janeiro, a biblioteca foi oficialmente instituída por meio de instrução assinada pelo ministro Ruben Rosa, que mais tarde daria nome ao espaço, em homenagem reconhecida em 1969.
Desde então, a biblioteca acompanhou a trajetória do Tribunal. Com a mudança do TCU para Brasília, em 1961, passou por diferentes endereços até se fixar no edifício-sede, em 1975. Hoje, funciona no Anexo III e conta com uma segunda unidade no Instituto Serzedello Corrêa (ISC).
Com cerca de 30 mil livros e 750 títulos de periódicos, o acervo da Biblioteca do TCU é especializado em áreas como Direito, Contabilidade, Economia, Administração e Finanças Públicas. Reúne ainda publicações institucionais, materiais do ISC e trabalhos de servidores.
Entre os destaques está o chamado “acervo depositário”, responsável por preservar a memória institucional por meio de obras editadas pelo próprio TCU ou produzidas por seus servidores e autoridades. Outro item de relevância é o Vocabulário de Controle Externo (VCE), desenvolvido para organizar e facilitar a recuperação de informações nas diversas áreas de atuação da Casa.
A biblioteca também acompanha as transformações digitais, com acesso a plataformas como Safari Books, Biblioteca Digital Fórum, ABNT Coleções e Zênite Fácil, além de fornecer cópias digitalizadas sob demanda.
Embora atenda principalmente servidores e autoridades, a Biblioteca Ministro Ruben Rosa também é aberta ao público, com funcionamento de segunda a sexta, das 9h às 19h, na sede, e das 9h às 17h45, no Instituto Serzedello Corrêa (ISC).
Ao preservar a memória institucional e, ao mesmo tempo, investir em inovação e acesso à informação, as bibliotecas da Câmara, do Senado e do TCU reafirmam sua importância como instrumentos de conhecimento, transparência e fortalecimento das instituições públicas.


