Na segunda edição da série ‘Ouro da Casa’, conheça a trajetória do Climate Scanner, iniciativa desenvolvida por servidores do Tribunal de Contas da União que transformou dados complexos em uma linguagem global para avaliar o enfrentamento da crise climática
A crise climática não reconhece fronteiras. O calor que rompe recordes em um continente, a água que avança sobre ilhas e a seca que redesenha paisagens inteiras pertencem a uma mesma história. Mas, durante muito tempo, os países contaram essa história em idiomas técnicos diferentes, com indicadores próprios e métodos difíceis de comparar.
Foi dentro de uma unidade do Tribunal de Contas da União, entre reuniões, planilhas e perguntas ainda sem resposta, que um grupo de servidores decidiu construir uma linguagem comum.
Essa trajetória é o tema da segunda edição do ‘Ouro da Casa’, série mensal criada pelo Sindilegis para enaltecer servidores cujas pesquisas, projetos e iniciativas desenvolvidos tenham grande relevância . A proposta é lançar luz sobre trabalhos que, muitas vezes longe dos holofotes, ampliam a capacidade do serviço público de produzir conhecimento, inovação e transformação social.
Desta vez, o destaque é o Climate Scanner, ferramenta que nasceu no TCU e ganhou dimensão internacional ao permitir uma avaliação rápida e visual das ações adotadas por governos no enfrentamento da crise climática.
Uma pergunta sem resposta pronta
A iniciativa começou a tomar forma em 2021, na unidade de Meio Ambiente do Tribunal, sob a condução dos servidores Carlos Eduardo Lustosa, Hugo Chudyson e Dashiell Velasque da Costa. Ao observar os mecanismos internacionais de acompanhamento das políticas ambientais, a equipe encontrou uma lacuna: faltava uma linguagem comum que permitisse comparar realidades tão diferentes.
Como avaliar, com critérios compartilhados, as políticas de um país continental e as de uma pequena nação insular ameaçada pela elevação do nível do mar? Como criar indicadores suficientemente objetivos sem ignorar as particularidades de cada território?
Para Carlos Eduardo Lustosa, especialista sênior do TCU, foi dessa tensão entre o universal e o particular que surgiu o principal desafio do projeto. “Você tem que estabelecer uma linguagem comum, e aí é que está o desafio. Porque essa linguagem tem que ser aplicada no contexto das Maldivas, no contexto do Uruguai e em diferentes realidades. Saber até onde ir foi algo decorrente dessa necessidade.”
A resposta encontrada pelos servidores foi uma metodologia estruturada em três pilares: governança, financiamento climático e políticas públicas de adaptação e mitigação.
Mais do que organizar indicadores, porém, era necessário garantir que a ferramenta pudesse ser reconhecida e utilizada por diferentes países. Em vez de apresentar um modelo pronto, o TCU reuniu órgãos de controle de mais de 18 nações para construir os critérios coletivamente.
Ao redor da mesma mesa — ainda que, muitas vezes, de forma virtual — encontravam-se representantes de territórios com dimensões, recursos e vulnerabilidades muito distintos. Cada discordância ajudava a revelar os limites da metodologia e a aproximá-la da realidade. “Desta vez, a gente estava construindo junto. Alguém dizia: ‘Não, a minha realidade aqui nas Maldivas não é essa’. Então, tivemos que encontrar os pontos de convergência”, recorda Carlos.
Quando os dados ganham cores
Relatórios climáticos costumam ser extensos, técnicos e pouco acessíveis para quem não acompanha o tema de perto. O Climate Scanner buscou seguir o caminho contrário: transformar a complexidade em uma leitura direta, sem esvaziar o conteúdo.
Inspirada em metodologias já utilizadas pelo Tribunal, a ferramenta apresenta os resultados em mapas e indicadores visuais. As cores verde, amarelo e vermelho permitem identificar rapidamente os avanços, os pontos de atenção e as fragilidades encontradas em cada país. Assim, aquilo que antes poderia ficar restrito a especialistas passa a ser compreendido também por cidadãos, gestores e agentes públicos.
“O cidadão não precisa ser especialista. Ele olha e percebe: há um sinal vermelho, então a situação não está boa; o amarelo indica um ponto de atenção. Quando você transforma isso em um formato visual, a compreensão fica muito mais simples”, explica.
A escolha das cores não é apenas uma solução gráfica. Ela representa uma tentativa de aproximar o trabalho dos órgãos de controle da sociedade e de fazer com que os diagnósticos produzidos também sirvam como instrumentos de gestão.
Uma ideia brasileira atravessa fronteiras
O projeto logo deixou de pertencer apenas ao TCU. A metodologia passou a circular entre instituições internacionais e encontrou aplicação concreta em outros governos.
No México, o Ministério do Meio Ambiente adotou os indicadores desenvolvidos pela equipe brasileira para acompanhar a própria gestão. Para Carlos, o uso da ferramenta por um órgão governamental estrangeiro demonstra que a atuação do controle pode ir além da fiscalização e da punição. “Isso, para mim, é o melhor dos mundos, porque rompe com aquela visão apenas punitiva. O gestor enxergou valor na ferramenta e passou a utilizar os indicadores para melhorar a própria gestão.”
O crescimento do Climate Scanner também foi sustentado pelo apoio da alta administração do Tribunal ao longo das gestões de Ana Arraes, Bruno Dantas, Jorge Oliveira e do atual presidente, Vital do Rêgo. Esse respaldo permitiu que uma ideia surgida na área técnica ganhasse espaço institucional e alcançasse organismos internacionais. Hoje, a iniciativa conta com a parceria do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com o engajamento de 141 países.
O serviço público que também aponta caminhos
O Climate Scanner nasceu da identificação de um problema concreto, mas cresceu porque seus criadores entenderam que nenhuma resposta global poderia ser construída de forma isolada. A ferramenta carrega, em sua origem, a marca da escuta, da cooperação e do conhecimento técnico produzido por servidores públicos.
Ao colocar o Brasil no centro de uma rede internacional de monitoramento climático, o projeto também amplia a percepção sobre o papel das instituições de controle. Além de fiscalizar recursos e apontar falhas, elas podem desenvolver soluções, articular países e oferecer instrumentos para o aperfeiçoamento das políticas públicas.
Na segunda edição de Ouro da Casa, o Sindilegis destaca justamente essa capacidade: a de transformar a experiência acumulada dentro do serviço público em uma iniciativa capaz de atravessar oceanos.Em um mundo que ainda busca maneiras de medir suas respostas à emergência climática, um grupo de servidores do TCU ajudou a desenhar o mapa.


