“A adolescência por si só já é super complexa”, disse a psicóloga e mediadora Sara Macedo na primeira edição de 2025 da série Papos que Transformam, promovida em parceria com os comitês de equidade do Senado e do TCU. Com o tema “A adolescência e sua proteção no ambiente digital”, o encontro reuniu mães e especialistas para discutir os desafios contemporâneos da maternidade — especialmente quando vivida em uma sociedade hiperconectada.
Adriana D’Ajuz, psicóloga com atuação voltada à saúde mental juvenil, apontou dois principais desafios enfrentados por pais e mães de adolescentes hoje: “As redes, que têm novidades constantemente, e a adolescência, que já é uma novidade para os pais.” Ela explica que o raciocínio que entende o perigo e a necessidade de proteção ainda não está totalmente formado na infância e na adolescência. Nesse contexto, o acesso às redes sociais, que funcionam como uma “porta para o mundo”, pode representar tanto oportunidades quanto riscos.
A socióloga Bruna Camilo reforçou a ideia de que as mães estão sobrecarregadas por uma série de expectativas irreais, muitas vezes impostas por uma sociedade que ainda sustenta uma divisão desigual do trabalho doméstico e do cuidado. “Estamos numa sociedade da exaustão e isso gera consequências enormes na criação dos filhos. Cuidar virou sinônimo de cansaço. E a culpa materna aparece como efeito colateral dessa sobrecarga constante.” Para Bruna, cuidar da mãe é um passo indispensável para garantir o cuidado saudável das crianças e adolescentes: “Quem cuida de quem cuida?”.
O uso da tecnologia como recurso diante da falta de rede de apoio também foi debatido. Adriana pontuou que, em muitos casos, o celular se torna a única alternativa para mães que precisam de algum tempo para trabalhar ou descansar. “A internet acaba sendo um suporte para mães sobrecarregadas, mas também se transforma em um ambiente de riscos para adolescentes sem a noção clara dos perigos digitais.”
A prática da maternidade, no entanto, sempre desafia a teoria. Verônica Oliveira, criadora do perfil Faxina Boa e mãe de três filhos, trouxe uma fala sobre o processo de aceitar a individualidade da filha, que cresceu com gostos e interesses próprios. “Foi difícil entender que ela não era uma miniversão minha. E você só tem a opção de acolher.”
A tecnologia, segundo as participantes, não deve ser tratada como inimiga. Verônica deu um exemplo prático: seu filho aprendeu inglês jogando online e hoje compõe músicas. “Até certa medida, a gente tem que confiar”, disse.
Camilo destacou ainda que a socialização das crianças e adolescentes vem sendo impactada pelo uso excessivo de telas, e que a sociedade precisa estar atenta a isso. “A educação das crianças é responsabilidade de todos.”
O consenso entre as convidadas foi em torno da importância do diálogo. “É conversar e negociar com as crianças, para que elas também tomem decisões”, sugeriu Bruna. Adriana complementou: “Precisamos ampliar os laços afetivos, escutar, entender o universo do outro. Não é a quantidade de tempo com os filhos que importa, mas a qualidade desse tempo.”
No fim do bate-papo, a socióloga deixou duas indicações de leitura que ajudam a refletir sobre os temas debatidos: Misoginia na Internet, de Mariana Valente, e A Vontade de Mudar, da escritora bell hooks, que discute masculinidade, amor e relações familiares.
Papos que Transformam é uma série de conversas que busca ir além do discurso, provocando mudanças reais na forma como enxergamos temas urgentes como maternidade, racismo, etarismo, gordofobia, entre outros. E, como ficou evidente neste primeiro encontro do ano, a transformação começa em casa — mas precisa de toda a sociedade para acontecer de verdade.





