Sarau 2025: Evaldo Araújo

Nome : Evaldo Araújo

(Literatura – Cordel e Poesia)

Perfil: Evaldo Araújo é natural de Caruaru, Pernambuco (nascido em 14 de maio de 1963, no Bairro da Rua Preta). Poeta cordelista, improvisador e declamador, Evaldo é um dos guardiões da literatura popular nordestina. Entre seus trabalhos notáveis, destacam-se: “Nas Ruas da Rua Preta, vive Eugênio Queiroz”, “No Balanço da Toyota”, “Karl Marx Matuto” e a trilogia satírica que inclui “O Pinto do Padre” e “A malhação do Judas”. Seu prestígio é reconhecido com sua cadeira na Academia Caruaruense de Artes e Filosofia (Acafil), onde ocupa a cátedra Mestre Dila, dedicada ao Cordel.

Redes Sociais:

TikTok: https://www.tiktok.com/@evaldoaraujo63?_t=8oUj25lq2Lt&_r=1

Instagram: instagram.com/evaldo_jsaraujo

Obra para o Sarau:

A João Alberto Silveira Freitas

Vidas Negras Importam!

Temos que ser incisivos
Porque negar é cinismo
Acabar com o genocídio
negro, que vem do racismo
Deixemos de falsidade
Onde está essa igualdade
que os dominantes exortam?
Salve Zumbi e Dandara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”!

“Pretos, Pobres, Periféricos”
Massacrados nas favelas
Revistados sem motivos
Agredidos nas vielas
Cor não faz ninguém bandido!
Peixes grandes, protegidos,
armas e drogas exportam
E a polícia não lhes para
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”

Cotas e reforma agrária:
devemos reparação!
Combater tudo que oprime
Toda discriminação
De liberdade é preciso
Amar os negros sorrisos
Porque paz eles transportam
Dançar tudo que é Odara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”

Luiz Gama, André Rebouças
Salve Maria Firmina!
Dragão do Mar, Jangadeiro,
Negro Cosme, Adelina,
O Tigre da Abolição,
Baiana Conjuração
Exemplos que nos reportam
Viva Dona Ivone Lara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”

Viva o Almirante Negro
E Tereza de Benguela
Felipa Maria Aranha
Nossas Guerreiras são elas
Licutan, Zacimba Gaba
A batalha não se acaba
Lutas ensinam, confortam,
Nos unem, são joias raras
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”

Palmares, Mola, Piolho:
Quilombos e resistência
Balaiada e Malês:
Revoltas e consciência
Ontem: chibatas, correntes
Hoje: milícias, patentes
Nosso povo e corpo cortam
Racismo que se escancara
Vamos dizer, cara a cara;
Que “Vidas negras importam”

Um acorde de Bituca
Um verso de Carolina
Mandela e Malcon X
Um samba com Clementina
Muhhamad Ali, Cartola
Pelé, o dono da bola.
Os europeus não suportam
se Vini Jr. dispara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”

Miró, Solano e França
Naná, Luiz Melodia
Odailta e Ciata
Sandra Sá, Candeia e Lia
Black, ébano, indomável
Som, batuque memorável,
nossos orixás comportam
e o ancestral antepara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”

Salvador, 20 de novembro de 2025
(Dia da Consciência Negra)
Evaldo Araujo

A dor de Gonzagão

“Do pátio tirem meu nome”

Ao amigo sanfoneiro

Dia 31 de maio

Cheio de ansiedade

João falou: “vou pra cidade

É hoje que eu me espaio”

Montou o cavalo baio

Tomou uma de Pitú

E disse a sua Milu

“Vamo imbora, formosura

Que hoje é a abertura

Do São João de Caruaru”

Cheios de empolgação

Desceram pela Malhada

Falaram, deram risada

E foram pro Riachão

Na casa de Bastião

Apearam a montaria

E o compadre, com alegria:

“Vamos embora ligeiro

Pro Forró do Candeeiro

Cuida que já  é meidia”

Pegaram a Zé Mariano

Rumo ao Vicente Monteiro

Seguindo o paradeiro

Que tomaram em outro ano

Mas viram quando um paisano

Falou: “ali tá fechado,

de tapume bloqueado

por causa dos camarotes,

e o povão, os pixotes

tem que ir pro outro lado”

Acharam um desrespeito

Mas seguiram pro destino

Porque o bom nordestino

Pro forró sempre dá jeito

Fizeram o caminho direito

Atrás de uma concertina

Tomaram uma silibrina

E viram com os zoi de bila

Uma peste de uma fila

Que dava na outra esquina

Na fila, foi meia hora

De conversa e empurrão

Pois o espaço pro povão

Foi diminuído agora

Depois de muita demora

Passaram pela revista

Felizes com a conquista

Saíram naquele arranque

Para frente do palanque

Pra apreciar os artistas

A primeira exibição

Foi de emocionar

Pois o Maestro Mozart

Respeita a tradição

Foi do xote ao baião

Regendo uma bela orquestra

Pífanos fazendo a festa

Mestres Marcos, João e Biu

Era de dar arrepio

Eita forró da mulesta

Uma moça apontava

Os artistas da cidade

Cheia de felicidade

Seu João do Pife indicava

Sebastian ela mostrava

“É Júnior Francês”, dizia

Toda cheio de alegria

Ao ver o povo da terra

Com o forró pé de serra

Fazer tamanha magia

João dançava com Milu

Que já descera do salto

Cantarolavam bem alto

“Caruara, Caruru,

Hoje é Caruaru”

João disse “é só o começo,

essa festa  não tem preço.

Mulé coloca os tamancos

Vamos no cavalo manco,

que ser feliz eu mereço”

Quando a orquestra parou

Era grande a animação

“Esse é o maior São João”

Milu ligeiro falou

E João complementou

“Vamos molhar o gogó

Pra depois levantar pó

Olhando o milho gigante

Porque de agora em diante

Aqui só toca forró”

Enquanto tomavam meia

Lá no palco, dois sujeitos

Iam babando o prefeito

Numa babação tão feia

Que dava vergonha alheia

Depois da divulgação

De reclames de montão

A dupla se empolgou

E gritando anunciou

Quem era a nova atração

Fogos e luzes piscando

E um som acelerado

João ficou assustado

Com o que estava tocando

Perguntou se agoniando

“Que diabo é isso mulé?

Milu falou “é axé”

E João, falando só

“Mas o pátio é pra forró

Pra xote e arrasta-pé”

Uma moça disse: “É não.

Esse é o palco principal

E o artista local

Não tá na programação”

Lhe estendendo a mão

A programação lhe deu

Ele leu, não entendeu,

E disse para Milu

“Que houve em Caruaru,

o que foi que aconteceu?”

Achando que lera errado

Para Milu disse assim:

“Meu amor, lê para mim.

Diz que estou equivocado”

Perguntava agoniado:

“Não vai mais ter Azulão?

Quinteto e Forró Quentão

Quando é Flávio José?

Petrúcio que dia é?

Irah Caldeira e Assisão?”

“Maciel Melo não tá?

Nem Alceu com Julião?

Aqui não tem mais baião?

Onde está Josildo Sá

e Cacimba de Aluá?

Flávio Leandro não vem?

Israel Filho também?

Cadê o Mestre Genaro,

com o seu fole tão raro

quando toca um xenhenhém?”

“A Banda Zé do Estado

Com Marcelo Jeneci

Ivson não está aí

Com Artuzinho ao seu lado?

Herbert não foi chamado?

Cadê Banda do Batista?

Que eu não vi nessa lista

Cadê o forró pé de serra

E a banda Cheiro da Terra,

onde estão nossos artistas?

“Nádia Maia e Benil

Almério e Trio Nordestino

Walmir Silva e Targino,

todo esse povo sumiu?

Vamos ouvir Clã Brasil?

Amor, olhe direitinho,

Veja ai se tem Novinho

Renilda e Joana Angélica

Por favor, me dê a réplica

Olhe bem devagarinho”

“Gilvan Neves, Valdir Santos

Fulô de Mandacaru

Didi de Caruaru

Alcimar e outros tantos”

Falava, quase em um prantos

E Milu nada dizia

A cabeça sacudia

Todo tempo em negação

Porque na programação

Nenhum daqueles havia

“Tem Elba, na sexta-feira

No início, bem cedinho

Também tem Jorge de Altinho

Mas quase na saideira

Mais da nação forrozeira:

Aldemário, Dorgival

e João Gomes que é legal

mesmo sendo do piseiro

O resto dos forrozeiros

Não estão neste local”

João disse: “vamos embora

Está na hora de ir

Pegar o baio e partir

Sair pelo mundo afora

Pois esse povo ignora,

desrespeita a tradição

Aqui não fico mais não

Mas vamos por esse lado

Pra eu dar um abraço apertado

Na estátua de Gonzagão”

Disse isso e se levantou

Mas quando olhou para trás

A estátua não tava mais

Aí João endoidou

Na carreira disparou

Pras bandas da estação

Viu em meio a multidão

A estátua caminhando

Gonzagão se retirando

Com o fole e o matulão

A estátua ele encontrou

Bem perto da 232

E perguntou: “o que foi?

o senhor se magoou?

Quem foi que lhe aperrou,

e por que está chorando?

Eu sempre lhe vi cantando

Dando alegria ao povo

Volte lá, cante de novo

Que a gente tá precisando”

“Ainda bem que não tô só”

O Rei falou pra João

“Mas aqui não fico não

Nem meu fole, meu xodó

Esse Pátio Sem Forró

Maltrata tal qual a fome

A tristeza me consome

E se eu mereço respeito

Por favor, deem um jeito:

Do pátio tirem meu nome!”

Evaldo Araújo

31/5/2025

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