
Nome : Evaldo Araújo
(Literatura – Cordel e Poesia)
Perfil: Evaldo Araújo é natural de Caruaru, Pernambuco (nascido em 14 de maio de 1963, no Bairro da Rua Preta). Poeta cordelista, improvisador e declamador, Evaldo é um dos guardiões da literatura popular nordestina. Entre seus trabalhos notáveis, destacam-se: “Nas Ruas da Rua Preta, vive Eugênio Queiroz”, “No Balanço da Toyota”, “Karl Marx Matuto” e a trilogia satírica que inclui “O Pinto do Padre” e “A malhação do Judas”. Seu prestígio é reconhecido com sua cadeira na Academia Caruaruense de Artes e Filosofia (Acafil), onde ocupa a cátedra Mestre Dila, dedicada ao Cordel.
Redes Sociais:
TikTok: https://www.tiktok.com/@evaldoaraujo63?_t=8oUj25lq2Lt&_r=1
Instagram: instagram.com/evaldo_jsaraujo
Obra para o Sarau:
A João Alberto Silveira Freitas
Vidas Negras Importam!
Temos que ser incisivos
Porque negar é cinismo
Acabar com o genocídio
negro, que vem do racismo
Deixemos de falsidade
Onde está essa igualdade
que os dominantes exortam?
Salve Zumbi e Dandara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”!
“Pretos, Pobres, Periféricos”
Massacrados nas favelas
Revistados sem motivos
Agredidos nas vielas
Cor não faz ninguém bandido!
Peixes grandes, protegidos,
armas e drogas exportam
E a polícia não lhes para
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”
Cotas e reforma agrária:
devemos reparação!
Combater tudo que oprime
Toda discriminação
De liberdade é preciso
Amar os negros sorrisos
Porque paz eles transportam
Dançar tudo que é Odara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”
Luiz Gama, André Rebouças
Salve Maria Firmina!
Dragão do Mar, Jangadeiro,
Negro Cosme, Adelina,
O Tigre da Abolição,
Baiana Conjuração
Exemplos que nos reportam
Viva Dona Ivone Lara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”
Viva o Almirante Negro
E Tereza de Benguela
Felipa Maria Aranha
Nossas Guerreiras são elas
Licutan, Zacimba Gaba
A batalha não se acaba
Lutas ensinam, confortam,
Nos unem, são joias raras
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”
Palmares, Mola, Piolho:
Quilombos e resistência
Balaiada e Malês:
Revoltas e consciência
Ontem: chibatas, correntes
Hoje: milícias, patentes
Nosso povo e corpo cortam
Racismo que se escancara
Vamos dizer, cara a cara;
Que “Vidas negras importam”
Um acorde de Bituca
Um verso de Carolina
Mandela e Malcon X
Um samba com Clementina
Muhhamad Ali, Cartola
Pelé, o dono da bola.
Os europeus não suportam
se Vini Jr. dispara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”
Miró, Solano e França
Naná, Luiz Melodia
Odailta e Ciata
Sandra Sá, Candeia e Lia
Black, ébano, indomável
Som, batuque memorável,
nossos orixás comportam
e o ancestral antepara
Vamos dizer, cara a cara:
Que “Vidas negras importam”
Salvador, 20 de novembro de 2025
(Dia da Consciência Negra)
Evaldo Araujo
A dor de Gonzagão
“Do pátio tirem meu nome”
Ao amigo sanfoneiro
Dia 31 de maio
Cheio de ansiedade
João falou: “vou pra cidade
É hoje que eu me espaio”
Montou o cavalo baio
Tomou uma de Pitú
E disse a sua Milu
“Vamo imbora, formosura
Que hoje é a abertura
Do São João de Caruaru”
Cheios de empolgação
Desceram pela Malhada
Falaram, deram risada
E foram pro Riachão
Na casa de Bastião
Apearam a montaria
E o compadre, com alegria:
“Vamos embora ligeiro
Pro Forró do Candeeiro
Cuida que já é meidia”
Pegaram a Zé Mariano
Rumo ao Vicente Monteiro
Seguindo o paradeiro
Que tomaram em outro ano
Mas viram quando um paisano
Falou: “ali tá fechado,
de tapume bloqueado
por causa dos camarotes,
e o povão, os pixotes
tem que ir pro outro lado”
Acharam um desrespeito
Mas seguiram pro destino
Porque o bom nordestino
Pro forró sempre dá jeito
Fizeram o caminho direito
Atrás de uma concertina
Tomaram uma silibrina
E viram com os zoi de bila
Uma peste de uma fila
Que dava na outra esquina
Na fila, foi meia hora
De conversa e empurrão
Pois o espaço pro povão
Foi diminuído agora
Depois de muita demora
Passaram pela revista
Felizes com a conquista
Saíram naquele arranque
Para frente do palanque
Pra apreciar os artistas
A primeira exibição
Foi de emocionar
Pois o Maestro Mozart
Respeita a tradição
Foi do xote ao baião
Regendo uma bela orquestra
Pífanos fazendo a festa
Mestres Marcos, João e Biu
Era de dar arrepio
Eita forró da mulesta
Uma moça apontava
Os artistas da cidade
Cheia de felicidade
Seu João do Pife indicava
Sebastian ela mostrava
“É Júnior Francês”, dizia
Toda cheio de alegria
Ao ver o povo da terra
Com o forró pé de serra
Fazer tamanha magia
João dançava com Milu
Que já descera do salto
Cantarolavam bem alto
“Caruara, Caruru,
Hoje é Caruaru”
João disse “é só o começo,
essa festa não tem preço.
Mulé coloca os tamancos
Vamos no cavalo manco,
que ser feliz eu mereço”
Quando a orquestra parou
Era grande a animação
“Esse é o maior São João”
Milu ligeiro falou
E João complementou
“Vamos molhar o gogó
Pra depois levantar pó
Olhando o milho gigante
Porque de agora em diante
Aqui só toca forró”
Enquanto tomavam meia
Lá no palco, dois sujeitos
Iam babando o prefeito
Numa babação tão feia
Que dava vergonha alheia
Depois da divulgação
De reclames de montão
A dupla se empolgou
E gritando anunciou
Quem era a nova atração
Fogos e luzes piscando
E um som acelerado
João ficou assustado
Com o que estava tocando
Perguntou se agoniando
“Que diabo é isso mulé?
Milu falou “é axé”
E João, falando só
“Mas o pátio é pra forró
Pra xote e arrasta-pé”
Uma moça disse: “É não.
Esse é o palco principal
E o artista local
Não tá na programação”
Lhe estendendo a mão
A programação lhe deu
Ele leu, não entendeu,
E disse para Milu
“Que houve em Caruaru,
o que foi que aconteceu?”
Achando que lera errado
Para Milu disse assim:
“Meu amor, lê para mim.
Diz que estou equivocado”
Perguntava agoniado:
“Não vai mais ter Azulão?
Quinteto e Forró Quentão
Quando é Flávio José?
Petrúcio que dia é?
Irah Caldeira e Assisão?”
“Maciel Melo não tá?
Nem Alceu com Julião?
Aqui não tem mais baião?
Onde está Josildo Sá
e Cacimba de Aluá?
Flávio Leandro não vem?
Israel Filho também?
Cadê o Mestre Genaro,
com o seu fole tão raro
quando toca um xenhenhém?”
“A Banda Zé do Estado
Com Marcelo Jeneci
Ivson não está aí
Com Artuzinho ao seu lado?
Herbert não foi chamado?
Cadê Banda do Batista?
Que eu não vi nessa lista
Cadê o forró pé de serra
E a banda Cheiro da Terra,
onde estão nossos artistas?
“Nádia Maia e Benil
Almério e Trio Nordestino
Walmir Silva e Targino,
todo esse povo sumiu?
Vamos ouvir Clã Brasil?
Amor, olhe direitinho,
Veja ai se tem Novinho
Renilda e Joana Angélica
Por favor, me dê a réplica
Olhe bem devagarinho”
“Gilvan Neves, Valdir Santos
Fulô de Mandacaru
Didi de Caruaru
Alcimar e outros tantos”
Falava, quase em um prantos
E Milu nada dizia
A cabeça sacudia
Todo tempo em negação
Porque na programação
Nenhum daqueles havia
“Tem Elba, na sexta-feira
No início, bem cedinho
Também tem Jorge de Altinho
Mas quase na saideira
Mais da nação forrozeira:
Aldemário, Dorgival
e João Gomes que é legal
mesmo sendo do piseiro
O resto dos forrozeiros
Não estão neste local”
João disse: “vamos embora
Está na hora de ir
Pegar o baio e partir
Sair pelo mundo afora
Pois esse povo ignora,
desrespeita a tradição
Aqui não fico mais não
Mas vamos por esse lado
Pra eu dar um abraço apertado
Na estátua de Gonzagão”
Disse isso e se levantou
Mas quando olhou para trás
A estátua não tava mais
Aí João endoidou
Na carreira disparou
Pras bandas da estação
Viu em meio a multidão
A estátua caminhando
Gonzagão se retirando
Com o fole e o matulão
A estátua ele encontrou
Bem perto da 232
E perguntou: “o que foi?
o senhor se magoou?
Quem foi que lhe aperrou,
e por que está chorando?
Eu sempre lhe vi cantando
Dando alegria ao povo
Volte lá, cante de novo
Que a gente tá precisando”
“Ainda bem que não tô só”
O Rei falou pra João
“Mas aqui não fico não
Nem meu fole, meu xodó
Esse Pátio Sem Forró
Maltrata tal qual a fome
A tristeza me consome
E se eu mereço respeito
Por favor, deem um jeito:
Do pátio tirem meu nome!”
Evaldo Araújo
31/5/2025





