A história da saga de Kehindé, mulher preta raptada em África e trazida à força para ser escravizada no Brasil no século XIX, e uma coletânea de contos e crônicas sobre os sentimentos evocados durante a pandemia da Covid-19 são apresentados nas resenhas do Sindilegis Indica desta semana.
Confira os textos de Jéssica Edilaine Cardoso sobre o livro “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves (2006); e de Eliane Cruxên sobre o livro de sua própria autoria “De que sorri lisa” (2023).
Resenha do livro “Um defeito de cor” (Ana Maria Gonçalves) por Jéssica Edilaine Cardoso

“Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje.”
(Provérbio Iorubá)
Começo este texto evocando um provérbio ancestral que abre o último capítulo da obra Um Defeito de Cor (Record, 2006) e que, desde que chegou até mim, nunca fez tanto sentido. Porque compreender esse provérbio é também compreender que passado, presente e futuro não se separam: se atravessam, se misturam, se explicam.
Talvez não tenha sido coincidência este livro ter me encontrado neste momento. Porque certos encontros não são casuais, são chamados. São respostas. São parte de um movimento muito maior, que vem de longe, que vem do Daomé, do Atlântico dos terreiros, dos quilombos, das ruas e dos espaços que, historicamente, fomos impedidos de ocupar, mas que agora reivindicamos por direito.
“Um Defeito de Cor” não é apenas um livro. É um portal. Um chamado à memória, à ancestralidade, à revolução. É a história de Kehinde, mulher preta, africana, arrancada de sua terra – a nossa terra, mãe África -, sequestrada de sua cultura, mas que jamais abriu mão de sua essência. A trajetória, ainda que atravessada pela dor, é também uma ode à resistência, à criatividade e à potência de um povo que nunca caminhou só. Caminhamos com os nossos. Com os presentes e com aqueles que jazem no fundo do mar, não como insepultos, mas eternamente vivos na nossa memória.
Ler esta obra é se reconhecer. É entender que a história do Brasil, a verdadeira, não cabe nos livros oficiais, nem nas narrativas embranquecidas que nos foram impostas. Ela pulsa nas cicatrizes abertas, na luta cotidiana, nos corpos que se recusam a ser silenciados.
Este livro nos convoca a olhar para a espiritualidade que tentaram criminalizar, para os saberes que quiseram apagar, para as culturas que buscaram aniquilar, mas que seguem vivas. Porque somos, sim, herdeiros de reis e rainhas, de um povo que foi massacrado, mas que, ainda assim, segue nos ensinando a erguer nossas cabeças todos os dias.
A revolução é ancestral. É feita na palavra, na escrita, na memória, no corpo e, sobretudo, no ato de ocupar espaços de decisão. Porque estar presente nesses espaços é também rasgar os véus do apagamento histórico e lembrar: nós existimos. Nós resistimos. Nós reexistimos.
Kehinde ousou, e ousou muito. Desafiou um mundo que lhe dizia não, que lhe negava a humanidade. E, ainda assim, construiu pontes, abriu caminhos e nos deixou a lição de que jamais seremos apenas o que tentaram nos fazer acreditar.
“Um Defeito de Cor” de Ana Maria Gonçalves, não é apenas uma obra literária. É um manifesto. Um grito. Um reencontro com aquilo que nos foi roubado, mas que nunca deixou de pulsar dentro de nós.
Que esta leitura encontre mais corpos, mais mentes e mais corações dispostos a entender que a luta por dignidade não é do passado: ela é urgente, presente e cotidiana. Que sejamos, como Kehinde, a semente presente do futuro, uma cor sem defeitos, que resplandece, pulsa, resiste e floresce!
Resenha do livro “De que sorri lisa” (Eliane Cruxên) por Eliane Cruxên

Durante a pandemia de Covid-19, Eliane publicou, em seus perfis no Facebook e Instagram, contos e crônicas, breves e leves, sob o título Sherazade nos tempos do coronavírus, sugerindo que os textos seriam uma proteção contra sentimentos de angústia, ansiedade e medo decorrentes do isolamento, incerteza e insegurança provocados pelo coronavírus.
Uma seleção desses textos, acrescida de alguns inéditos, foi organizada no livro “de que sorri lisa”, que fala de amores, desamores, lembranças de infância, acasos, gentilezas e animais de estimação. Muitos leitores se encontrarão nas cenas da vida, nas lembranças e em situações desafiadoras e inusitadas. Como afirma Cláudio Passos, no prefácio, “Eliane nos leva pelos tropeços das amizades de fato, colore os gestos banais do dia com sua percepção acurada, humor sutil.” “Quando menos se espera, gatos evitam uma separação de almas. E um papagaio engaiolado liberta.” E o leitor saberá, logo de início, a razão do enigmático sorriso do famoso quadro de Leonardo Da Vinci.
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