Sindilegis Indica: filiados apresentam resenhas do livro  “O avesso da pele” e do filme “Incêndios”

Em um compromisso com a difusão cultural dos servidores das três Casas, o Sindilegis divulga periodicamente resenhas enviadas pelos filiados de obras culturais de todas as formas, entre filmes, livros, discos, peças e muito mais. O projeto Sindilegis Indica estreou em 2024 e segue como um canal de disseminação do trabalho dos servidores para além do desempenhado na Câmara, no Senado e no TCU.

Nesta semana, confira as resenhas de Eliane Cruxên, aposentada do Senado, sobre o livro “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório (2021); e de Vinicius Mendonça da Silva, auditor do TCU, que resenhou o filme “Incêndios” (2010), do diretor Denis Villeneuve.

Resenha do livro “O avesso da pele” (Jefferson Tenório) por Eliane Cruxên 

Dentre os melhores livros que li em 2024 (Cerimônia do Adeus, de Simone de Beauvoir, Em agosto nos vemos, de Garcia Marquez), O avesso da pele – vencedor do Jabuti de 2021 – foi o que mais me emocionou. Numa linguagem simples, quase erudita, a narrativa flui, leve, por vezes com intenso lirismo, para nos falar de relações humanas, afetos, violência contra mulheres e crianças, histórias de vidas cujo avesso não se restringe à dolorosa vivência do racismo.

No apartamento do pai, recentemente falecido, Pedro conversa com memórias e objetos, buscando preencher o vazio que marcou a relação deles em vida. Seu luto vai se fazer dessa construção de lembranças, para transformar o legado da ausência numa espécie de presença, dolorida, triste. Seu luto é também uma declaração de amor pelo pai. Como não pode morar no pensamento dele, como gostaria, vai recuperando importantes vivências, a principal sobre modos de perceber, sentir e viver o racismo. Criança, surpreendido pela pergunta do pai sobre sua cor, observou que os braços de ambos tinham quase a mesma cor, mas respondeu que não sabia. Era negro, disse o pai, e lhe deu uma aula sobre racismo.

Nos raros momentos de convivência, ao longo dos anos, o pai superou a timidez, a tristeza e a distância para deixar outros legados ao filho, ora acolhendo suas angústias e inseguranças afetivas, ora o advertindo para preservar o avesso: “aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão todos os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos”.

O professor que não consegue motivar os alunos com o belo poema José, de Drummond, descobre, tardiamente, na maneira de narrar Crime e Castigo, de  Dostoievski, um motivo para continuar ensinando.

E mais não digo. Recomendo!

Resenha do filme “Incêndios” (Denis Villeneuve) por Vinicius Mendonça da Silva

“A verdade vem à tona, mesmo sob os escombros do silêncio.”

Poucos filmes conseguem ser ao mesmo tempo tão devastadores e belos quanto Incêndios. Dirigido por Denis Villeneuve — antes de suas superproduções hollywoodianas — esse drama canadense nos conduz por uma jornada emocional e geográfica inesquecível. Não é um filme fácil, mas é impossível sair ileso.

A história gira em torno dos gêmeos Jeanne e Simon, que, após a morte da mãe, recebem instruções incomuns em seu testamento: entregar duas cartas — uma para o pai que julgavam morto e outra para um irmão que nem sabiam existir. Essa busca os leva ao Oriente Médio, num país fictício, mas claramente inspirado pelo Líbano em tempos de guerra civil. Aos poucos, eles descobrem quem realmente foi sua mãe, Nawal, e enfrentam verdades duras, daquelas que mudam a forma como se enxerga o mundo.

O roteiro é intrincado e engenhoso, revelando camadas do passado com precisão quase cirúrgica. Cada cena é um pedaço de um quebra-cabeça que só se encaixa por completo nos minutos finais — e o impacto da revelação é, sem exagero, de tirar o fôlego.

A atuação de Lubna Azabal como Nawal é um espetáculo à parte. Com poucos gestos e olhares, ela transmite o peso de uma vida marcada por escolhas extremas e traumas indizíveis. A direção de Villeneuve é contida, sensível e respeitosa, mesmo diante de cenas fortes. Nada ali é gratuito: tudo serve à história, à dor, à memória.

Sim, Incêndios é um filme pesado. Fala de guerra, intolerância, violência — mas também de resiliência, amor e dignidade. É daqueles que ficam na cabeça por dias e podem até te fazer repensar o que entende por “verdade” e “perdão”.

Se você gosta de cinema que provoca, que não subestima sua inteligência e que carrega força emocional genuína, essa é uma experiência obrigatória. Incêndios não é só um filme, é um testemunho. E, como todo testemunho forte, merece ser ouvido — ou, neste caso, assistido.

Participe!

Quer sua resenha publicada nos canais do Sindilegis? Envie em vídeo (até 1min30) ou em texto (até 1 página) para [email protected], com o assunto Sindilegis Indica + nome da obra. No corpo do e-mail: seu nome + sua Casa (Câmara, Senado ou TCU)

Todas as obras culturais são aceitas no projeto: filme, livro, disco, poema, ou qualquer outra de sua preferência. Vale tudo: do clássico ao alternativo, do consolidado ao desconhecido. 

Esperamos sua participação!

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