O Teatro Engrenagem, em Brasília, recebe entre os dias 31 de julho e 9 de agosto o espetáculo “Cicuta (ou Um tal de Sócrates)”, nova montagem do Grupo-Teatro Caleidoscópio. Com apoio do Sindilegis, a peça propõe uma reflexão sobre democracia, educação, responsabilidade e pensamento crítico a partir do julgamento e da morte do filósofo grego Sócrates.
A dramaturgia e a direção são assinadas por André Amahro, servidor da Câmara dos Deputados, jornalista, artista multidisciplinar e filiado ao Sindilegis. Há mais de quatro décadas dedicado às artes cênicas, Amahro é fundador do Grupo-Teatro Caleidoscópio, referência na cena cultural brasiliense pela pesquisa que articula teatro, filosofia, estética e debate público.

Na montagem, Sócrates é apresentado não como uma figura distante da História, mas como alguém cuja trajetória dialoga diretamente com os desafios contemporâneos. Entre o tribunal, o oráculo e a prisão, o espetáculo aproxima os dilemas da Grécia Antiga de questões atuais, convidando o público a refletir sobre obediência, liberdade, democracia e responsabilidade coletiva.
Segundo André Amahro, a escolha do filósofo como personagem central surge da necessidade de discutir os fundamentos da convivência democrática em um momento marcado por polarizações e tensões políticas: “Vivemos uma crise institucional muito grande no Brasil. Numa democracia, o que se espera é justamente o respeito às diferenças. Somos debatedores legítimos, com direito à fala e à expressão, mas dentro de um processo de civilidade”.
O diretor destaca que a democracia ateniense se apoiava em valores éticos fundamentais, como o respeito aos direitos dos outros e a responsabilidade diante da coletividade. Para ele, a peça busca justamente abrir espaço para uma reflexão sobre como esses princípios podem ser preservados nos dias atuais: “É para criar uma arena de discussão sobre o real sentido da democracia e sobre como podemos sustentá-la dentro de uma perspectiva saudável e pacífica para todos nós”.
Pensamento crítico e responsabilidade
A peça revisita o julgamento de Sócrates, condenado à morte sob a acusação de corromper a juventude ateniense e desafiar as crenças estabelecidas. Para Amahro, a força do personagem está na disposição de questionar certezas e provocar reflexão: “Sócrates ensina que pensar dói, que a verdade não consola e que a virtude não é prêmio, é exercício. Ele quis apenas que ninguém vivesse sem se examinar.”
Essa perspectiva está sintetizada em uma das máximas atribuídas ao filósofo: uma vida sem exame não vale a pena ser vivida. O espetáculo parte dessa ideia para estimular o público a refletir sobre suas próprias escolhas e responsabilidades.: “Sócrates representa aquele que questiona a ordem estabelecida. Ele não foi morto apenas por seus inquisidores, mas por um sistema que não admite ser questionado.”
A aproximação com o período pré-eleitoral também é intencional. Sem abordar disputas partidárias, a montagem convida o espectador a refletir sobre o papel individual na construção da vida pública: “O voto não é apenas a escolha de um governo. É uma forma silenciosa de responsabilidade compartilhada. É uma escolha de destino”.
Atualidade de um filósofo antigo
O espetáculo também dialoga com temas como desinformação e pensamento crítico. Para Amahro, a sociedade vive um momento em que a capacidade de analisar informações e questionar narrativas tornou-se ainda mais necessária: “Existem muitas fake news e a desinformação é avassaladora. Precisamos filtrar o que é informação e o que não é, o que é verdade e o que não é. Temos que estar cada vez mais alertas sobre o que lemos, vemos e ouvimos.”
O diretor lembra que Sócrates ficou conhecido justamente por desafiar valores considerados inquestionáveis em sua época. Em vez de transmitir respostas prontas, utilizava a maiêutica, método baseado em perguntas que estimulavam cada indivíduo a construir seu próprio raciocínio: “Ele era muito mais um pedagogo do que um filósofo. Não desenvolvia teorias; provocava as pessoas para que elas próprias exercitassem sua capacidade de pensar.”
Um tal de Sócrates
O subtítulo da peça também ajuda a compreender sua proposta. Segundo Amahro, a expressão “Um tal de Sócrates” procura aproximar o filósofo do público contemporâneo.
Como o pensador não deixou escritos próprios, sua história chegou até os dias atuais por meio de autores como Platão, Xenofonte e Aristófanes. A partir dessa multiplicidade de relatos, o dramaturgo optou por construir uma versão aberta do personagem, capaz de dialogar com questões do presente: “Todo mundo se referia a Sócrates como aquele Sócrates, um tal de Sócrates que andava por aí fazendo isso ou aquilo. Minha dramaturgia é aberta e traz um Sócrates pensando questões contemporâneas.”
Teatro Caleidoscópio: a dramaturgia como espaço de reflexão
Fundado em 1994, o Teatro Caleidoscópio construiu sua trajetória explorando a relação entre criação artística e debate social. Para Amahro, “Cicuta” dá continuidade a essa linha de trabalho: “Tudo o que nos propomos a fazer tem ligação com o nosso dia a dia, com o que acontece no país e com aquilo que nos preocupa e nos move. O espetáculo é um espaço de discussão, mas também de apreciação estética.”
Além da dramaturgia, a montagem reúne as atrizes Vanessa Di Faria (Sócrates), Sandra Regina (Meleto), Flavia Neiva (Anito) e Raquel Aló (Oráculo). A trilha sonora original será executada ao vivo pelo multiinstrumentista Elias Santos, enquanto a iluminação é assinada por Claudio Lago.
Serviço
Espetáculo: Cicuta (ou Um tal de Sócrates)
Temporada: 31 de julho a 9 de agosto
Sessões:
- Sextas: às 20h
- Sábados e domingos, às 18h
Local: Teatro Engrenagem – SHCGN 708/709, Bloco B, Entrada 30, subsolo, Brasília (DF)
Ingressos:
- R$ 60 (inteira)
- R$ 30 (meia-entrada para estudantes, professores, pessoas com 60 anos ou mais e PCDs)
- R$ 30 (meia solidária, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível)
Classificação indicativa: 14 anos
Os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.
https://www.sympla.com.br/evento/cicuta-ou-um-tal-de-socrates/3500045


