O decote é mais embaixo

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A diretora de Igualdade de Gênero e Raça do Sindilegis, Giovana Perlin, aborda em artigo a proposta de criação de um código de vestimenta na Câmara dos Deputados, o que gerou protesto por parte das servidoras da Casa. O proposto dress code  da Câmara foi ideia da deputada federal Cristiane Brasil e está sendo elaborado pelo deputado Beto Mansur. Confira a opinião de Giovana Perlin sobre o tema.

 

O decote é mais embaixo

Causou espanto, nas últimas semanas, a notícia de que uma norma seria decretada para regular os comprimentos e as profundidades dos decotes das mulheres que trabalham e ingressam na Câmara dos Deputados. Ainda, para não parecer implicância, a minuta estabelece algumas restrições às vestimentas dos homens, como impedimento do uso de chapéu.

As opiniões se dividiram. Para alguns, há necessidade de algum tipo de medida para conter os excessos. Para outros, é um atentado aos direitos fundamentais, além de medida incompatível com o título de “Casa do Povo”.

Particularmente, não me espanta uma minuta dessas transitar pela Câmara, já que esta Casa é um grande laboratório de ideias as quais, numa visão ampla, traduzem os anseios do povo brasileiro. Como disse Edgard Morin, ética é um ponto de vista que não deve ser analisado a partir de parâmetros como bom e mau.

Lembro ainda das ideias interessantes de Iris Merion Young, quando fala da impossibilidade da representação política ser total ou substitutiva da pessoa. Para a estudiosa, a representação é uma relação estabelecida, e não um cheque em branco que é dado ao parlamentar para que atue no lugar do cidadão.

Quero dizer, com isso, que todas as ideias apresentadas devem ser respeitadas e discutidas.

Por outro lado, quando uma mulher sugere restrição às roupas de outras mulheres, fico me perguntando qual é a sua relação com as outras mulheres. Como essa mulher parlamentar vê as mulheres?  Quem são as outras mulheres para esta mulher?  O que representam?

As perguntas parecem simples, mas falam, em verdade, de como as pessoas são constituídas de várias identidades. Uma mulher não é meramente o que veste. Uma mulher não é meramente mãe. Uma mulher não é meramente uma profissional. Somos várias em uma.

A cultura passa diversos modelos femininos para nossas meninas e para nós, baseados em tradições e em representações de gênero, muitas vezes contraditórias. Usar uma roupa sensual é uma forma de expressão. Não importa se você concorda ou não, pois esse é um direito seu. Mas importa que você respeite a forma do outro se expressar e o veja na sua dimensão integral, que não consegue ser resumida à vestimenta.

No Brasil, há décadas tentamos acabar com a ideia de que uma mulher que se veste de forma sexualmente atrativa “pediu para ser estuprada”. Há séculos tentamos destruir a imagem da mulher como incitadora do pecado. Houve tempo em que uma mulher desquitada não podia frequentar eventos sociais, pelo perigo que representava para os maridos das casadas. Houve época na qual mulheres não podiam vestir calças compridas. Houve tempo em que a mulher não podia votar, muito menos ser parlamentar.

Assim, peço um pouco mais de cuidado com a delicadeza e a complexidade das restrições impostas às expressões das mulheres. Principalmente em um parlamento composto por 513 cadeiras e apenas 50 são ocupadas por mulheres. Num dia restringem suas roupas para entrar…no outro, podem restringir a sua entrada.

 

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